Nos últimos meses, tudo confluiu para desenhar um sinal de sentido obrigatório: «Vá para casa!». No hemisfério Norte, aliado à chuva e ao frio do inverno, o medo e as restrições em torno da pandemia e de novas vagas, prolongaram a obrigação formal do confinamento, isto é, de estar em casa – esse espaço, no caso de muitas famílias, pequeno, a que a sociedade da pressa perversora, no dizer de Bertman, nos habituou a usar quase apenas para dormir, não para viver, não para nascer. A pandemia veio alterar radicalmente este modus vivendi, ainda que temporariamente. Força-nos (a re-aprender) a estar em casa: na habitação física que nos serve de lar, mas, sobretudo, a confrontarmo-nos com a casa da nossa própria interioridade, o santuário íntimo da nossa consciência, fora do qual vivemos demasiadas vezes. A imposição de travar a evasão, de conviver com a solidão ou com o rosto dos que nos são, porventura, duramente próximos, com os nossos medos, com rotinas simples, com o silêncio, com a efemeridade da vida e de todos os esquemas que produzimos, leva-nos a interrogarmo-nos sobre o sentido das coisas.

Embora alvo de medidas restritivas mais benevolentes, vivemos um Natal com reservas ao habitual: o ir à “terra”, reunir os nossos, os presentes, os fritos, o “afetivamente-quentinho”, etc. Mas não continua esta circunstância grávida de oportunidade? Reduzimos o Natal e isto, mas o Natal não é isto. Longe do “quentinho” o Natal celebra a efetiva e efetivada possibilidade de, fora da zona de segurança e de conforto, na pobreza e na solidão nascer uma vida nova, geradora de um novo e sustentável paradigma de vida para toda a humanidade. É a vida do próprio Deus, luz terna e suave, acolhida na intimidade de “casa”, primeiramente de Maria, depois na pacatez de um estábulo, e que insiste no desejo de nos habitar para conduzir cada pessoa a viver na Sua própria “casa” e conceder essa condição de unidade, de fraternidade e de paz, inscrito no mais fundo do desejo humano.

Tradicionalmente, vivemos o Natal com os da nossa família. Mas ao falar da dinâmica da vida nova do Reino que o Natal inaugura, lemos na boca de Jesus: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes. Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.» (Lc 14, 12a.13-14). Não será a família que o Natal inaugura muito mais do que os nossos? Um amor que sai da sua zona de conforto, da sua esfera divina e se abre radicalmente ao diverso de si, pobre e alheio, instaura, convida e torna possível o nascimento de uma relacionalidade nova: a fraternidade, uma família nova, inversa à dinâmica da expulsão do outro, extensível a todo o ser humano, ao que não é do meu clube ou do meu sangue, que inclui os meus, mas que passa a considerar os que não são meus tanto como aos meus.

Viver demasiado tempo em casa é duro. Mas só “em casa” é que este novo pode nascer. O silêncio, a simplicidade e o tempo vividos em casa são elementos propícios para “voltar para casa”, isto é, para vivermos por dentro, para cuidarmos da vida interior. A oração, enquanto escuta atenta da voz de Deus, tem lugar “em casa”. Acolher essa voz é acolher-se como “casa” de Deus, garante da nossa “casa”. Sem esta conversão nunca estaremos “em casa” e sem ela não há Casa Comum, nem ecologia integral, nem fraternidade, nem ano novo, nem estilos de vida novos, verdadeiramente humanos.

Na esteira do que afirma um filósofo contemporâneo, Byung-Chul Han, um vírus não pode por si mudar a humanidade. Só a nossa decisão – a nossa conversão, pedia Nossa Senhora na Cova da Iria – dará origem a uma nova forma de viver, mais fraterna, mais equilibrada, mais humana.

Irmã Sandra Bartolomeu

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