Decreto sobre as Virtudes

CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS

LISBOA

Beatificação e Canonização da Serva de Deus
Luiza Maria Langstroth Figueira de Sousa Vadre Santa Marta Mesquita e Melo (v.d. Luiza Andaluz)

Fundadora da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima
(1877-1973)

«Doce programa de vida: passar fazendo o bem à imitação do Mestre Divino, tornar felizes os que nos rodeiam».

Foi este o projecto que caracterizou a vida e espiritualidade da Serva de Deus Luiza Maria Langstroth Figueira de Sousa Vadre Santa Marta Mesquita e Melo, comummente chamada Luiza Andaluz. Entre os muitos bens materiais e espirituais recebidos da sua nobre família, sobressaiu o tesouro da fé. À imitação de Cristo Senhor fez da própria vida um dom e, esquecida de si, beneficiou muitos com os seus bens patrimoniais e sobretudo com a própria virtude.
A Serva de Deus nasceu a 12 de Fevereiro de 1877 em Santarém, Patriarcado de Lisboa, filha de António Júlio, Visconde de Andaluz e de Anna Langstroth. Ao ramo materno pertence, como prima, Santa Katherine Mary Drexel, Fundadora, nos Estados Unidos da América, das Irmãs do Santíssimo Sacramento para Índios e Negros (Sisters of the Blessed Sacrament for Indians and Colored People). Luiza foi baptizada a 15 de Março de 1877, recebeu a Confirmação em 1885 e fez a Primeira Comunhão em 1889.

Nos anos da juventude, a participação na vida social própria da sua classe não distraiu o seu coração da sincera procura da vontade de Deus e do empenho pela santificação pessoal.

Mulher forte, perspicaz, acolhedora, pôde aperfeiçoar os singulares dons da natureza com uma acurada educação. A sua grandeza espiritual consistiu em saber colocar estas qualidades à disposição da vontade de Deus, que lhe manifestava a urgência de socorrer os últimos da sociedade.

De facto, desde a juventude a jovem Luiza teve uma compassiva predilecção pelos necessitados, nos quais ela reconhecia o rosto de Cristo.

Ainda adolescente, auxiliou e susteve as Clarissas Capuchinhas de Santarém na sua obra de promoção para crianças pobres.

Quando depois o convento foi suprimido, a Serva de Deus continuou a obra caritativa a favor das crianças.
Portugal era então avassalado por uma mentalidade política anticlerical. Ao mesmo tempo a Mãe de Deus manifestava-se em Fátima dirigindo uma consoladora mensagem celeste, que assinalou profundamente a piedade popular e a espiritualidade da Igreja.

Destes dois pólos contrastantes foi marcada também a vida de Luiza que teve de sofrer humilhações, calúnias, adversidades, devido às obras de caridade social por ela postas em acção. Todavia soube encontrar força e esperança para prosseguir com empenho, acolhendo o materno convite da Virgem Maria de construir a civilização do amor.
Para responder às necessidades da evangelização e para dar continuidade às obras sociais de promoção humana, que vinha a realizar, decidiu fundar uma congregação religiosa, que fosse contemplativa na acção e caracterizada por um profundo espírito de oração. Neste percurso de discernimento Luiza mostrou-se prudente, temperante, obediente e cheia de esperança. Obtida a autorização do Arcebispo de Évora, a 13 de Maio de 1923, a Serva de Deus, junto com doze companheiras, dirigiu-se ao Santuário de Fátima para se consagrarem à Virgem e darem início ao projecto. A 15 Outubro seguinte nascia, no Palácio Andaluz de Santarém, a “Obra de Deus”, que nos primeiros anos teve de agir na clandestinidade.

A fortaleza e a prudência da fundadora manifestaram-se claramente quando se desencadeou contra ela uma difamante campanha pública que a acusava de mulher reaccionária à cabeça de uma obra obscurantista. A estas ondas suscitadas pelos inimigos externos, juntam-se também motivos de sofrimento a nível interno da Congregação. Isto acontece quando se lhe propõe a criação de um ramo puramente contemplativo no Instituto com uma nota peculiar de “espírito de reparação”. Este projecto bem depressa se revelou incompatível com a condução serena da actividade apostólica desenvolvida por Luiza. Para pôr fim às divergências e às tensões surgidas, a Serva de Deus, obediente e humilde, recorreu ao Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, a fim de com ele discernir. Este confirmou o projecto inicial de Luiza e providenciou à autonomia desta família religiosa, de espírito prevalentemente contemplativo na acção. Depois desta necessária reestruturação, a 19 de Abril de 1939, deu-se a aprovação definitiva da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima. A 11 de Outubro de 1939 Luiza Andaluz, com outras vinte e quatro irmãs, emitiu a primeira profissão.

Em todos estes acontecimentos pessoais e fundacionais, a Serva de Deus refulge por uma heróica confiança na Providência, à qual se abandonava totalmente e para quem orientava constantemente as suas filhas: «Nunca me canso de escrever a tintas de oiro a palavra confiança: o Senhor acode sempre a quem n’Ele confia!». Durante os anos do seu governo a Serva de Deus multiplicou as obras apostólicas, trabalhou pela expansão do Instituto, promoveu a formação das irmãs.

Guardou sempre uma profunda união com Deus, por meio da oração e da meditação. Viveu enamorada da sua vocação religiosa, praticou a pobreza e uma profunda humildade no trato com as pessoas. Em 1953 entregou o governo da Congregação, confiando a Maria o último período da sua vida. Em Fátima, durante os meses de Maio a Outubro, trabalhou na divulgação da mensagem que a Senhora tinha entregue aos “três Pastorinhos” e fundou o Serviço de Informações e Acolhimento aos Peregrinos. Passou os últimos anos da sua vida na Casa Mãe, no Largo de São Mamede, em Lisboa. Durante este tempo não perdeu a alegria e a amabilidade do seu carácter, não obstante os sofrimentos causados por um tumor e pela fractura do fémur.

Morreu serenamente a 20 de Agosto de 1973 aos noventa e seis anos de idade.

Os seus restos mortais foram transladados para Santarém, onde se celebraram as exéquias solenes. Posteriores testemunhos da sua fama de santidade, levaram a que de 15 Outubro de 1997 a 25 de Março de 2000, se desenvolvesse, na Cúria Patriarcal de Lisboa, o Inquérito Diocesano, cuja validade jurídica foi reconhecida por esta Congregação da Causa dos Santos pelo Decreto de 6 de Julho de 2000. Preparada a Positio, foi discutido, segundo os usuais procedimentos, se a Serva de Deus tinha exercitado em grau heróico as virtudes. Com êxito positivo, a 16 Fevereiro de 2017 realizou-se o Congresso dos Consultores Teólogos. Os Padres Cardeais e Bispos, na Sessão Ordinária de 12 de Dezembro de 2017, presidida por mim, Cardeal Angelo Amato, reconheceram que a Serva de Deus exercitou em grau heróico as virtudes teologais, cardiais, bem como as virtudes decorrentes das mesmas.

Tendo sido apresentada ao Papa Francisco, pelo Cardeal Prefeito abaixo assinado, uma relação detalhada de todas as fases anteriormente expostas, Sua Santidade, aceitando e ratificando os pareceres da Congregação para as Causas dos Santos, com a data de hoje, declarou: “Fazemos constar que as virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, quer em relação a Deus quer em relação ao próximo, bem como as virtudes cardeais da Prudência, Justiça, Temperança e Fortaleza e as que lhe são decorrentes, foram praticadas em grau heróico pela Serva de Deus Luiza Maria Andaluz Langstroth Figueira de Sousa Vadre S. Marta Mesquita e Melo (v.d. Luiza Andaluz), Fundadora da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, no caso presente e para os devidos efeitos.

O Santo Padre ordenou que este decreto seja tornado público e que seja transcrito nas actas da Congregação para as Causas dos Santos.

Dado em Roma, no dia 18 do mês de Dezembro, no ano do Senhor de 2017

ANGELUS Card. AMATO, S. D. B.
                Prefeito

+ MARCELLUS BARTOLUCCI
Arcebispo titular de Bevagna
              Secretário